
Orientação proíbe uso de templos e estruturas religiosas para favorecer ou prejudicar candidaturas; nos bastidores, porém, relatos apontam para reuniões de alinhamento político dentro de grandes congregações
O Ministério Público Eleitoral (MP Eleitoral) recomendou às entidades religiosas de Rondônia que não utilizem seus espaços, estruturas ou atividades para promover ou prejudicar candidatos nas eleições de 2026. A medida estabelece limites para a atuação política dentro das igrejas e orienta líderes religiosos a não transformarem cultos, reuniões e celebrações em instrumentos de propaganda eleitoral.
A recomendação, assinada pelo procurador regional eleitoral Leonardo Caberlon, determina ainda que as instituições religiosas divulguem as orientações entre seus membros, principalmente aqueles que são pré-candidatos ou candidatos.
A iniciativa, entretanto, coloca em evidência uma situação que pode ser observada nos bastidores da corrida eleitoral: enquanto o MP Eleitoral estabelece limites para a participação das igrejas na campanha, há relatos de que grandes lideranças religiosas vêm promovendo reuniões com seus dirigentes e fiéis para orientar apoios políticos.
De acordo com relatos que circulam entre integrantes de diferentes congregações, reuniões de alinhamento político estariam ocorrendo com frequência em grandes templos, apresentadas formalmente como atividades religiosas.
Nesses encontros, segundo os relatos, lideranças estariam indicando aos fiéis quais candidatos deveriam receber apoio nas eleições deste ano. Em alguns casos, apoiadores e dirigentes também estariam demonstrando publicamente esse alinhamento por meio de adesivos de candidatos nos veículos.
É importante diferenciar a participação política individual de uma eventual utilização da estrutura religiosa para direcionar o voto dos fiéis. Qualquer cidadão, inclusive um líder religioso, possui liberdade para ter suas preferências políticas. O problema surge quando a autoridade religiosa é utilizada para impor ou induzir determinada escolha eleitoral dentro da instituição.
Igreja pode participar do debate político?
A participação das igrejas no debate sobre os rumos da sociedade não é, por si só, incompatível com a democracia. Instituições religiosas podem discutir temas sociais, econômicos, familiares e políticos e incentivar seus membros a exercerem a cidadania.
O limite está justamente na transformação do espaço religioso em instrumento de campanha ou na utilização da autoridade espiritual para impor uma determinada escolha eleitoral aos fiéis.
É nesse ponto que a recomendação do MP Eleitoral ganha relevância. O documento aponta que não é permitida a utilização da estrutura física, organizacional, de pessoal, financeira ou comunicacional das igrejas para promover ou prejudicar candidaturas.
A orientação também alcança cultos, celebrações, reuniões e outras atividades religiosas, que não devem ser utilizados por pastores, ministros, sacerdotes, pregadores ou outros líderes para propaganda eleitoral.
A própria recomendação destaca que a propaganda eleitoral pode ocorrer de forma explícita ou dissimulada. Entre as práticas mencionadas estão manifestações de apoio, exaltação de candidaturas, agradecimentos públicos, pedido de voto e outras ações destinadas a influenciar a escolha dos eleitores.
O entendimento citado pelo MP Eleitoral também considera que o abuso de poder religioso pode ser caracterizado mesmo sem um pedido direto de voto, dependendo das circunstâncias e do conjunto de elementos envolvidos.
Por isso, eventuais reuniões realizadas dentro de templos, com participação de lideranças e utilização da estrutura da igreja para definir ou orientar apoios eleitorais, merecem atenção dos órgãos de fiscalização, especialmente quando houver indícios de que a autoridade religiosa esteja sendo utilizada para direcionar coletivamente o voto dos fiéis.
A recomendação também reforça que a legislação eleitoral impede partidos e candidatos de receberem doações em dinheiro ou estimáveis em dinheiro de entidades religiosas.
Além disso, templos religiosos são considerados bens de uso comum e não podem ser utilizados para propaganda eleitoral. O responsável por permitir esse uso pode estar sujeito a multa de R$ 2 mil a R$ 8 mil, conforme a legislação citada pelo MP Eleitoral.
A orientação também recomenda que as próprias igrejas informem seus membros sobre as regras, especialmente aqueles que estejam envolvidos diretamente na disputa eleitoral.
Entre a liberdade religiosa e a liberdade de escolha
O debate, portanto, não está relacionado à proibição da participação dos religiosos na política. A igreja tem o direito de participar da discussão sobre os grandes temas da sociedade, assim como seus membros têm o direito de escolher seus candidatos.
O ponto central é garantir que a liberdade religiosa não seja utilizada como mecanismo de pressão eleitoral.
Quando um fiel recebe uma orientação política de um líder que admira, a relação deixa de ser apenas entre eleitor e candidato e passa a envolver uma relação de autoridade espiritual. Se essa influência for organizada institucionalmente para determinar quem deve ou não receber votos, o caso pode ultrapassar o campo da preferência política individual e entrar na esfera do possível abuso de poder religioso.
Diante disso, a recomendação do MP Eleitoral representa um alerta não apenas para as igrejas, mas também para candidatos e lideranças. Cabe aos órgãos de fiscalização acompanhar de perto o que acontece dentro e no entorno dos grandes templos durante o período eleitoral, garantindo que a fé e a estrutura religiosa não sejam utilizadas para restringir a liberdade de escolha do eleitor.
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